conrado falbo

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Arquivo de voz

artigo publicado

A Palavra em Movimento: Algumas Perspectivas Teóricas para a Análise de Canções no Âmbito da Música Popular

este é o (longo) título do meu artigo publicado pela revista Per Musi, ligada ao departamento de música da universidade federal de minas gerais (UFMG).

o artigo traz a parte teórica da minha dissertação de mestrado e enfoca a canção popular a partir de sua performance, em um cruzamento entre música, estudos literários e estudos da performance.

para acessar o artigo, basta clicar aqui.

meredith monk

meredith monk cantando

meredith monk é uma artista criadora que trabalha com música, teatro, dança e performance. o texto ‘notas sobre a voz’ pode ser lido simplesmente como o depoimento de uma artista que investiga as qualidades expressivas da voz, mas as questões que levanta e a linguagem que necessariamente é mobilizada para expressar suas ideias revelam uma extraordinária densidade poética. procurei durante algum tempo e não encontrei uma versão do texto em português, por isso resolvi fazer eu mesmo a tradução.

a versão original em inglês está disponível aqui.

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Notas sobre a voz
Meredith Monk (tradução e notas de Conrado Falbo)

Referência: Monk, M. (1976) Notes on the voice. In Painted Bride Quarterly, Vol. 3, Nº. 2, pp. 13-14.

1. A voz como ferramenta para descobrir, ativar, relembrar, revelar, demonstrar uma consciência pré-lógica/primordial.
2. A voz como meio de tornar-se, retratar, personificar, encarnar outro espírito.
3. A voz que dança. A voz tão flexível quanto a coluna.
4. A voz como linha direta para as emoções. Todo o espectro da emoção. Sentimentos para os quais não temos palavras.
5. A paisagem.
6. O corpo da voz / a voz do corpo.
7. A voz como manifestação do ego, persona ou personas.
8. Trabalhando com um companheiro (o instrumento acompanhante: órgão, piano, taça etc.): padrões repetidos ou ruído contínuo criando um tapete, uma tapeçaria de som para que a voz possa correr sobre, voar por cima, deslizar por baixo, prender-se e entrelaçar-se.
9. A voz como linguagem.
10. Cronologia de descobertas:

Início –

1967, dueto de voz solo com Echoplex reverberation unit (1) (Blueprint) (2), a voz livre como impulso elétrico.

1968, voz (vozes) e violino, berimbau de boca (Juice) (3), a voz crua (rústica, lamentosa, primitiva, audaciosa), cânticos repetidos; a voz como indicativo da personalidade – a mulher da montanha vermelha, como ela soa?

Continuação –

1970, voz solo com órgão elétrico (Raw Recital, Key: An Album of Invisible Theatre), a voz viajante (movendo-se por paisagens de sonho).

1971, ópera épica (Vessel), a voz de Deus (elevada, transparente, contundente), telégrafo cósmico; a voz como fenômeno sobrenatural – as vozes de Santa Joana, como elas soam?

1972-3, ópera (Education of the Girlchild) a voz de um ser humano de 80 anos, a voz de um ser humano de 800 anos, a voz de um ser humano de 8 anos; raízes Celtas, Maias, Incas, Hebraicas, Atlantes, Árabes, Eslavas, Tibetanas; a voz do oráculo, a voz da memória.

1972-3, dueto de voz solo com taça (taça de vinho cheia d’água), (Our Lady of Late), a voz nua, a voz feminina em todos os seus aspectos; gradações de sentimento, nuance, ritmo, qualidade; a cada seção uma voz (personagem, persona), a cada seção um problema musical, uma área de investigação diferente; toda a variação da voz (afinação, volume, velocidade, textura, timbre, respiração, colocação, força); a voz como veículo de uma jornada psíquica.

Hoje (4) –

1974, voz solo com piano (acústico) (Anthology), a voz da manhã, a voz amaciando enquanto o sol levanta, a voz derretendo-se e re-formando-se muitas vezes em uma canção; a voz como mensageira ou sibila; a mensageira da alma.

1975, solo para voz desacompanhada (Songs from the Hill), a voz como reflexo, espelho, receptora da natureza; vozes de animais, plantas, insetos; sinais, chamados, hieróglifos; uma oferenda à natureza; a voz, totalmente sozinha, desacompanhada, sem ornamentos.

1975-6, ópera (Quarry), 30 vozes, canções de todos os povos – acalanto, marchas, requiem ou lamento, hinos, canções de amor, canções de trabalho; um memorial; canons ou séries de 8 e 16 partes formando um círculo invisível no ar; vozes de homens e mulheres circulando, pairando, deslizando, golpeando; vozes como uma onda de energia, uma lavagem, uma cura.

Notas:

(1) Mecanismo que produz efeito de reverberação (eco), tornado célebre entre músicos a partir dos anos 1960.

(2) As expressões entre parênteses em inglês fazem referência aos títulos das peças criadas por Monk.

(3) O nome da peça faz referência à provável origem do nome do instrumento em inglês: Jew’s harp (berimbau de boca) como corruptela de Juice harp, literalmente ‘harpa de suco’, aludindo à grande quantidade de saliva produzida quando o instrumento era tocado por principiantes.

(4) Este texto foi publicado pela primeira vez em 1976. Monk continua em plena atividade de criação, pesquisa e performance.

canção

a palavra cantada tem sido um dos principais focos de minha pesquisa. foi a partir dela que comecei a pesquisar a performance e o universo da música popular.

parece óbvio dizer que a canção é composta basicamente de um texto que é enunciado por meio de uma melodia. é a conhecida dupla “letra e música”, elementos que geralmente desempenham um papel central quando falamos em canção, mas que nem sempre são suficientes para explicar a grande variedade de utilizações deste termo. dois exemplos são suficientes para ilustrar a complexidade da tarefa de definir o que é canção: as canções sem palavras e as canções sem música.

a expressão “cantabile” (cantável, em italiano) aparece em trechos de muitas partituras de peças instrumentais para indicar uma interpretação que se aproxime da voz humana, ou seja, o instrumentista deve tocar aquela passagem fazendo o instrumento soar como uma voz cantando. analogamente, as canções sem palavras são composições instrumentais nas quais a voz humana é evocada por meio da estrutura melódica e da interpretação do instrumentista. o fato de se chamarem canções não é gratuito: mesmo que a voz não esteja presente, a composição é determinada por critérios ligados ao canto e não por padrões instrumentais.

já as canções sem música são textos poéticos não acompanhados por melodia. ao longo dos tempos, muitos poetas batizaram suas composições de canções. esta denominação tampouco é desprovida de significados: além de nos remeter à intensa aproximação entre poesia e música [a poesia é uma manipulação essencialmente musical da linguagem, explorando ritmos e sons. além disso, na história das sociedades ocidentais, existiram inúmeras manifestações poéticas indissociáveis da melodia e/ou da música produzida por instrumentos, como a origem do termo "lírica" revela], também nos remete a uma estrutura de texto que evoca a melodia cantada.

estes dois exemplos servem para ampliar nossa visão da canção, chamando nossa atenção para manifestações expressivas que vão além do texto e da melodia, sem deixar de estar relacionadas às várias modalidades de utilização da voz e do som, elementos cuja presença indica a possibilidade da música.

mesmo quando empregamos o termo canção para nos referirmos a composições musicais cuja base é a dupla “letra e melodia” as inúmeras gradações entre os pólos verbal e musical devem sempre ser levadas em conta. óperas são textos cantados, assim como canções de rock e canções de ninar tradicionais. entretanto, estes três exemplos são expressões da palavra cantada completamente distintas, e devem ser consideradas em suas especificidades.

o estudo da canção, ou, mais precisamente, o estudo das canções, mobiliza um conjunto de conhecimentos relacionado a objetos de difícil definição justamente por estarem em constante transformação: voz e performance são os exemplos centrais.

a canção nos convida a “ouver” a dimensão musical da criação/percepção/comunicação humana. o mundo dos sons não se deixa apreender totalmente por meio da partitura, nem mesmo pelas gravações (que registram versões singulares de eventos musicais): o som é efêmero por natureza. ele mora no instante evanescente e, depois, na memória do ouvinte. o estudioso da canção e da performance deve encarar seu trabalho ciente destas limitações. mas também deve estar ciente de que nenhuma delas invalida seus esforços no sentido de caminhar rumo a uma compreensão mais profunda desses temas e da própria atividade de pesquisa, análise e elaboração teórica. o conhecimento que tanto buscamos é aberto e não absoluto, temporário e não definitivo, parcial e não completo.

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