conrado falbo
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afinal, o que é performance?
muita gente me faz essa pergunta, esperando ouvir algum tipo de definição ou, pelo menos, procurando uma idéia mais precisa do termo. quando explico os conceitos com os quais tenho trabalhado, a reação geralmente é uma frase como “mas então você quer dizer que TUDO é performance?”
comecemos pelo começo: a etimologia da palavra, que se refere a um ato pelo qual se dá forma a alguma coisa ou se revela a forma de alguma coisa. esta idéia de dar/revelar uma forma é essencial para os estudos estéticos, afinal, analisamos obras de arte, que são manifestações formais (entre muitas outras coisas).
no dicionário, encontramos a palavra performance como sinônimo de “desempenho” ou “atuação”, ampliando os sentidos do termo para além do campo das artes: performance é termo utilizado nos esportes, na área de tecnologia, recursos humanos etc.
o termo performance é muito utilizado na arte contemporânea para designar vários tipos de intervenções artísticas nas quais o artista assume um papel ativo frente ao público, atuando muitas vezes como o próprio veículo de expressão de sua obra. expressões como o happening ou a arte-performance podem servir como exemplos, embora não sejam os únicos.
para os estudos da palavra (canção, literatura, teatro, linguística etc.) o conceito de performance tem como importante marco teórico a obra de J. L. Austin: de forma grosseira, podemos dizer que o pensamento de Austin se baseia na noção do que ele batizou como “atos de fala” (ou speech acts) cuja principal característica é a performatividade, ou seja, em determinadas situações, “falar é fazer”. o exemplo clássico oferecido por Austin é o casamento: ao pronunciar a frase “eu aceito”, os noivos não estão apenas declarando algo, estão contraindo matrimônio. antes de Austin, Saussure já havia chamado atenção para o fato de que a linguagem é essencialmente sonora (linguagem é pensamento-som), uma característica que guarda forte ligação com a idéia de performatividade desenvolvida por Austin. há que se comentar ainda sobre os escritos de Walter Ong, que apontou diferenças essenciais sobre os modos de pensamento e expressão oral (em sociedades ágrafas ou pouco letradas) e escrito. ao revelar tais diferenças, Ong também concluiu que as tecnologias da linguagem (escrita, imprensa e meios digitais) nunca apagaram as marcas da oralidade.

Paul Zumthor
outro pensador importante nos estudos de performance é Paul Zumthor que, vindo dos estudos literários, desenvolveu uma importante linha de pensamento sobre a performance a partir de suas investigações sobre a “literatura” medieval – ele utilizava a expressão entre aspas para diferenciar as manifestações poéticas da idade média (essencialmete orais e ligadas à música) da idéia contemporânea de literatura. em vez de definir performance, Zumthor nos fala de “graus de performaticidade”, correspondendo a performance presencial (artistas e público presentes no mesmo espaço) ao mais alto grau de performaticidade. para Zumthor, até mesmo a leitura de um texto impresso (um livro, por exemplo) é considerada performance, correspondendo à situação com grau mais baixo de performaticidade. o importante aqui é o momento da interação entre obra e público, no que as idéias de Zumthor se aproximam do pensamento de críticos ligados à chamada estética da recepção (reader-response criticism or reception theory).
esta noção de performance que tem como núcleo a interação obra x público e leva em consideração as diferentes gradações desta interação é extremamente útil aos estudos da palavra performatizada em suas várias modalidades (palavra falada, cantada, declamada, visualizada etc.)
voltando à pergunta inicial, podemos dizer que não há uma resposta absoluta, apenas idéias e conceitos abertos demais para permitir uma definição bem delimitada. a reação de achar que “tudo é performance” é bastante natural e está relacionada a uma condição profundamente humana: a mudança. tudo que diz respeito à nossa percepção de mundo pode ser considerado performance na medida em que nos relacionamos com um universo em constante transformação, e nós mesmos somos seres mutantes por excelência. as formas do mundo são formas em movimento. o mundo performa (revela suas formas) para nós, seres performadores (criamos novas formas e as revelamos de volta ao mundo).