conrado falbo

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Arquivo de performance

simon frith sobre performance

encontrei ideias muito lúcidas sobre performance (ou arte-performance) em um livro sobre música popular, na verdade um estudo já clássico do pesquisador britânico Simon Frith. interessante notar como a música popular é uma área (tanto um campo de criação como de pesquisa acadêmica) capaz de articular e sintetizar noções de diversas disciplinas. isso sim é multi/inter/trans/anti/in – disciplinaridade.

traduzo um trecho abaixo:

“… o corpo-em-comunicação na arte-performance põe em tensão não simplesmente o subjetivo e o objetivo (a questão da arte), mas também o privado e o público (a questão do cotidiano). Em nossa experiência (ou imaginação) de nossos próprios corpos, quero dizer, existe sempre um espaço entre o que se quer dizer (o corpo dirigido de dentro) e o que é lido (o corpo interpretado de fora); e este espaço é uma contínua fonte de angústia, uma angústia de que, não o corpo em si, mas seu significado está fora de nosso controle. Na maioria das performances públicas, o corpo é, de fato, submetido a um tipo de controle externo, a motivação proporcionada por uma partitura ou roteiro ou rotina da situação social, que atua como uma rede de proteção para ambos performer e público. É esta rede de proteção que o artista da performance abandona, e pode-se concluir que a essência da arte-performance é, em sua finalidade, embaraço, um constante senso de inapropriado. Se, no teatro convencional, alguém se embaraça apenas quando esquece o texto ou fica de repente ‘fora do personagem’, na arte-performance se está à beira do embaraço o tempo todo porque o performer não está ‘no personagem’ para começo de conversa (e a tensão nervosa entre o público de uma ‘performance’ em oposição à ‘performance de uma peça de teatro’ é palpável).” (p. 206)

Frith, S. (1996) Performing Rites – on the value of popular music. Harvard University Press.

artigo publicado

A Palavra em Movimento: Algumas Perspectivas Teóricas para a Análise de Canções no Âmbito da Música Popular

este é o (longo) título do meu artigo publicado pela revista Per Musi, ligada ao departamento de música da universidade federal de minas gerais (UFMG).

o artigo traz a parte teórica da minha dissertação de mestrado e enfoca a canção popular a partir de sua performance, em um cruzamento entre música, estudos literários e estudos da performance.

para acessar o artigo, basta clicar aqui.

meredith monk

meredith monk cantando

meredith monk é uma artista criadora que trabalha com música, teatro, dança e performance. o texto ‘notas sobre a voz’ pode ser lido simplesmente como o depoimento de uma artista que investiga as qualidades expressivas da voz, mas as questões que levanta e a linguagem que necessariamente é mobilizada para expressar suas ideias revelam uma extraordinária densidade poética. procurei durante algum tempo e não encontrei uma versão do texto em português, por isso resolvi fazer eu mesmo a tradução.

a versão original em inglês está disponível aqui.

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Notas sobre a voz
Meredith Monk (tradução e notas de Conrado Falbo)

Referência: Monk, M. (1976) Notes on the voice. In Painted Bride Quarterly, Vol. 3, Nº. 2, pp. 13-14.

1. A voz como ferramenta para descobrir, ativar, relembrar, revelar, demonstrar uma consciência pré-lógica/primordial.
2. A voz como meio de tornar-se, retratar, personificar, encarnar outro espírito.
3. A voz que dança. A voz tão flexível quanto a coluna.
4. A voz como linha direta para as emoções. Todo o espectro da emoção. Sentimentos para os quais não temos palavras.
5. A paisagem.
6. O corpo da voz / a voz do corpo.
7. A voz como manifestação do ego, persona ou personas.
8. Trabalhando com um companheiro (o instrumento acompanhante: órgão, piano, taça etc.): padrões repetidos ou ruído contínuo criando um tapete, uma tapeçaria de som para que a voz possa correr sobre, voar por cima, deslizar por baixo, prender-se e entrelaçar-se.
9. A voz como linguagem.
10. Cronologia de descobertas:

Início –

1967, dueto de voz solo com Echoplex reverberation unit (1) (Blueprint) (2), a voz livre como impulso elétrico.

1968, voz (vozes) e violino, berimbau de boca (Juice) (3), a voz crua (rústica, lamentosa, primitiva, audaciosa), cânticos repetidos; a voz como indicativo da personalidade – a mulher da montanha vermelha, como ela soa?

Continuação –

1970, voz solo com órgão elétrico (Raw Recital, Key: An Album of Invisible Theatre), a voz viajante (movendo-se por paisagens de sonho).

1971, ópera épica (Vessel), a voz de Deus (elevada, transparente, contundente), telégrafo cósmico; a voz como fenômeno sobrenatural – as vozes de Santa Joana, como elas soam?

1972-3, ópera (Education of the Girlchild) a voz de um ser humano de 80 anos, a voz de um ser humano de 800 anos, a voz de um ser humano de 8 anos; raízes Celtas, Maias, Incas, Hebraicas, Atlantes, Árabes, Eslavas, Tibetanas; a voz do oráculo, a voz da memória.

1972-3, dueto de voz solo com taça (taça de vinho cheia d’água), (Our Lady of Late), a voz nua, a voz feminina em todos os seus aspectos; gradações de sentimento, nuance, ritmo, qualidade; a cada seção uma voz (personagem, persona), a cada seção um problema musical, uma área de investigação diferente; toda a variação da voz (afinação, volume, velocidade, textura, timbre, respiração, colocação, força); a voz como veículo de uma jornada psíquica.

Hoje (4) –

1974, voz solo com piano (acústico) (Anthology), a voz da manhã, a voz amaciando enquanto o sol levanta, a voz derretendo-se e re-formando-se muitas vezes em uma canção; a voz como mensageira ou sibila; a mensageira da alma.

1975, solo para voz desacompanhada (Songs from the Hill), a voz como reflexo, espelho, receptora da natureza; vozes de animais, plantas, insetos; sinais, chamados, hieróglifos; uma oferenda à natureza; a voz, totalmente sozinha, desacompanhada, sem ornamentos.

1975-6, ópera (Quarry), 30 vozes, canções de todos os povos – acalanto, marchas, requiem ou lamento, hinos, canções de amor, canções de trabalho; um memorial; canons ou séries de 8 e 16 partes formando um círculo invisível no ar; vozes de homens e mulheres circulando, pairando, deslizando, golpeando; vozes como uma onda de energia, uma lavagem, uma cura.

Notas:

(1) Mecanismo que produz efeito de reverberação (eco), tornado célebre entre músicos a partir dos anos 1960.

(2) As expressões entre parênteses em inglês fazem referência aos títulos das peças criadas por Monk.

(3) O nome da peça faz referência à provável origem do nome do instrumento em inglês: Jew’s harp (berimbau de boca) como corruptela de Juice harp, literalmente ‘harpa de suco’, aludindo à grande quantidade de saliva produzida quando o instrumento era tocado por principiantes.

(4) Este texto foi publicado pela primeira vez em 1976. Monk continua em plena atividade de criação, pesquisa e performance.

curso de extensão na ufpe

corpo som e palavra – a performance da canção popular.

curso de extensão com encontroa teóricos e práticos, sempre às terças e quintas à noite no Centro de Artes e Comunicação da UFPE. o curso será ministrado por mim e por Liana Gesteira (bailarina e pesquisadora em dança).

mais informações no site: http://corposompalavra.wordpress.com

apareçam!

dissertação de mestrado

minha dissertação de mestrado, defendida junto ao programa de pós-graduação em letras da UFPE, já está disponível no portal domínio público.

para baixar o arquivo .pdf é só clicar aqui.

afinal, o que é performance?

muita gente me faz essa pergunta, esperando ouvir algum tipo de definição ou, pelo menos, procurando uma idéia mais precisa do termo. quando explico os conceitos com os quais tenho trabalhado, a reação geralmente é uma frase como “mas então você quer dizer que TUDO é performance?”

comecemos pelo começo: a etimologia da palavra, que se refere a um ato pelo qual se dá forma a alguma coisa ou se revela a forma de alguma coisa. esta idéia de dar/revelar uma forma é essencial para os estudos estéticos, afinal, analisamos obras de arte, que são manifestações formais (entre muitas outras coisas).

no dicionário, encontramos a palavra performance como sinônimo de “desempenho” ou “atuação”, ampliando os sentidos do termo para além do campo das artes: performance é termo utilizado nos esportes, na área de tecnologia, recursos humanos etc.

o termo performance é muito utilizado na arte contemporânea para designar vários tipos de intervenções artísticas nas quais o artista assume um papel ativo frente ao público, atuando muitas vezes como o próprio veículo de expressão de sua obra. expressões como o happening ou a arte-performance podem servir como exemplos, embora não sejam os únicos. 

para os estudos da palavra (canção, literatura, teatro, linguística etc.) o conceito de performance tem como importante marco teórico a obra de J. L. Austin: de forma grosseira, podemos dizer que o pensamento de Austin se baseia na noção do que ele batizou como “atos de fala” (ou speech acts) cuja principal característica é a performatividade, ou seja, em determinadas situações, “falar é fazer”. o exemplo clássico oferecido por Austin é o casamento: ao pronunciar a frase “eu aceito”, os noivos não estão apenas declarando algo, estão contraindo matrimônio. antes de Austin, Saussure já havia chamado atenção para o fato de que a linguagem é essencialmente sonora (linguagem é pensamento-som), uma característica que guarda forte ligação com a idéia de performatividade desenvolvida por Austin. há que se comentar ainda sobre os escritos de Walter Ong, que apontou diferenças essenciais sobre os modos de pensamento e expressão oral (em sociedades ágrafas ou pouco letradas) e escrito. ao revelar tais diferenças, Ong também concluiu que as tecnologias da linguagem (escrita, imprensa e meios digitais) nunca apagaram as marcas da oralidade.

Paul Zumthor

Paul Zumthor

outro pensador importante nos estudos de performance é Paul Zumthor que, vindo dos estudos literários, desenvolveu uma importante linha de pensamento sobre a performance a partir de suas investigações sobre a “literatura” medieval – ele utilizava a expressão entre aspas para diferenciar as manifestações poéticas da idade média (essencialmete orais e ligadas à música) da idéia contemporânea de literatura. em vez de definir performance, Zumthor nos fala de “graus de performaticidade”, correspondendo a performance presencial (artistas e público presentes no mesmo espaço) ao mais alto grau de performaticidade. para Zumthor, até mesmo a leitura de um texto impresso (um livro, por exemplo) é considerada performance, correspondendo à situação com grau mais baixo de performaticidade. o importante aqui é o momento da interação entre obra e público, no que as idéias de Zumthor se aproximam do pensamento de críticos ligados à chamada estética da recepção (reader-response criticism or reception theory).

esta noção de performance que tem como núcleo a interação obra x público e leva em consideração as diferentes gradações desta interação é extremamente útil aos estudos da palavra performatizada em suas várias modalidades (palavra falada, cantada, declamada, visualizada etc.)

voltando à pergunta inicial, podemos dizer que não há uma resposta absoluta, apenas idéias e conceitos abertos demais para permitir uma definição bem delimitada. a reação de achar que “tudo é performance” é bastante natural e está relacionada a uma condição profundamente humana: a mudança. tudo que diz respeito à nossa percepção de mundo pode ser considerado performance na medida em que nos relacionamos com um universo em constante transformação, e nós mesmos somos seres mutantes por excelência. as formas do mundo são formas em movimento. o mundo performa (revela suas formas) para nós, seres performadores (criamos novas formas e as revelamos de volta ao mundo).

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