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Arquivo de palavra cantada

Itamar Assumpção

nova página no ar com informações sobre Itamar Assumpção. pretendo disponibilizar alguns textos e informações sobre este grande artista que foi tema da minha dissertação de mestrado. clique no menu à direita para visitar a página.

Itamar Assumpção (1949-2003)

Itamar Assumpção (1949-2003)

canção

a palavra cantada tem sido um dos principais focos de minha pesquisa. foi a partir dela que comecei a pesquisar a performance e o universo da música popular.

parece óbvio dizer que a canção é composta basicamente de um texto que é enunciado por meio de uma melodia. é a conhecida dupla “letra e música”, elementos que geralmente desempenham um papel central quando falamos em canção, mas que nem sempre são suficientes para explicar a grande variedade de utilizações deste termo. dois exemplos são suficientes para ilustrar a complexidade da tarefa de definir o que é canção: as canções sem palavras e as canções sem música.

a expressão “cantabile” (cantável, em italiano) aparece em trechos de muitas partituras de peças instrumentais para indicar uma interpretação que se aproxime da voz humana, ou seja, o instrumentista deve tocar aquela passagem fazendo o instrumento soar como uma voz cantando. analogamente, as canções sem palavras são composições instrumentais nas quais a voz humana é evocada por meio da estrutura melódica e da interpretação do instrumentista. o fato de se chamarem canções não é gratuito: mesmo que a voz não esteja presente, a composição é determinada por critérios ligados ao canto e não por padrões instrumentais.

já as canções sem música são textos poéticos não acompanhados por melodia. ao longo dos tempos, muitos poetas batizaram suas composições de canções. esta denominação tampouco é desprovida de significados: além de nos remeter à intensa aproximação entre poesia e música [a poesia é uma manipulação essencialmente musical da linguagem, explorando ritmos e sons. além disso, na história das sociedades ocidentais, existiram inúmeras manifestações poéticas indissociáveis da melodia e/ou da música produzida por instrumentos, como a origem do termo "lírica" revela], também nos remete a uma estrutura de texto que evoca a melodia cantada.

estes dois exemplos servem para ampliar nossa visão da canção, chamando nossa atenção para manifestações expressivas que vão além do texto e da melodia, sem deixar de estar relacionadas às várias modalidades de utilização da voz e do som, elementos cuja presença indica a possibilidade da música.

mesmo quando empregamos o termo canção para nos referirmos a composições musicais cuja base é a dupla “letra e melodia” as inúmeras gradações entre os pólos verbal e musical devem sempre ser levadas em conta. óperas são textos cantados, assim como canções de rock e canções de ninar tradicionais. entretanto, estes três exemplos são expressões da palavra cantada completamente distintas, e devem ser consideradas em suas especificidades.

o estudo da canção, ou, mais precisamente, o estudo das canções, mobiliza um conjunto de conhecimentos relacionado a objetos de difícil definição justamente por estarem em constante transformação: voz e performance são os exemplos centrais.

a canção nos convida a “ouver” a dimensão musical da criação/percepção/comunicação humana. o mundo dos sons não se deixa apreender totalmente por meio da partitura, nem mesmo pelas gravações (que registram versões singulares de eventos musicais): o som é efêmero por natureza. ele mora no instante evanescente e, depois, na memória do ouvinte. o estudioso da canção e da performance deve encarar seu trabalho ciente destas limitações. mas também deve estar ciente de que nenhuma delas invalida seus esforços no sentido de caminhar rumo a uma compreensão mais profunda desses temas e da própria atividade de pesquisa, análise e elaboração teórica. o conhecimento que tanto buscamos é aberto e não absoluto, temporário e não definitivo, parcial e não completo.

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