conrado falbo

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canção

a palavra cantada tem sido um dos principais focos de minha pesquisa. foi a partir dela que comecei a pesquisar a performance e o universo da música popular.

parece óbvio dizer que a canção é composta basicamente de um texto que é enunciado por meio de uma melodia. é a conhecida dupla “letra e música”, elementos que geralmente desempenham um papel central quando falamos em canção, mas que nem sempre são suficientes para explicar a grande variedade de utilizações deste termo. dois exemplos são suficientes para ilustrar a complexidade da tarefa de definir o que é canção: as canções sem palavras e as canções sem música.

a expressão “cantabile” (cantável, em italiano) aparece em trechos de muitas partituras de peças instrumentais para indicar uma interpretação que se aproxime da voz humana, ou seja, o instrumentista deve tocar aquela passagem fazendo o instrumento soar como uma voz cantando. analogamente, as canções sem palavras são composições instrumentais nas quais a voz humana é evocada por meio da estrutura melódica e da interpretação do instrumentista. o fato de se chamarem canções não é gratuito: mesmo que a voz não esteja presente, a composição é determinada por critérios ligados ao canto e não por padrões instrumentais.

já as canções sem música são textos poéticos não acompanhados por melodia. ao longo dos tempos, muitos poetas batizaram suas composições de canções. esta denominação tampouco é desprovida de significados: além de nos remeter à intensa aproximação entre poesia e música [a poesia é uma manipulação essencialmente musical da linguagem, explorando ritmos e sons. além disso, na história das sociedades ocidentais, existiram inúmeras manifestações poéticas indissociáveis da melodia e/ou da música produzida por instrumentos, como a origem do termo "lírica" revela], também nos remete a uma estrutura de texto que evoca a melodia cantada.

estes dois exemplos servem para ampliar nossa visão da canção, chamando nossa atenção para manifestações expressivas que vão além do texto e da melodia, sem deixar de estar relacionadas às várias modalidades de utilização da voz e do som, elementos cuja presença indica a possibilidade da música.

mesmo quando empregamos o termo canção para nos referirmos a composições musicais cuja base é a dupla “letra e melodia” as inúmeras gradações entre os pólos verbal e musical devem sempre ser levadas em conta. óperas são textos cantados, assim como canções de rock e canções de ninar tradicionais. entretanto, estes três exemplos são expressões da palavra cantada completamente distintas, e devem ser consideradas em suas especificidades.

o estudo da canção, ou, mais precisamente, o estudo das canções, mobiliza um conjunto de conhecimentos relacionado a objetos de difícil definição justamente por estarem em constante transformação: voz e performance são os exemplos centrais.

a canção nos convida a “ouver” a dimensão musical da criação/percepção/comunicação humana. o mundo dos sons não se deixa apreender totalmente por meio da partitura, nem mesmo pelas gravações (que registram versões singulares de eventos musicais): o som é efêmero por natureza. ele mora no instante evanescente e, depois, na memória do ouvinte. o estudioso da canção e da performance deve encarar seu trabalho ciente destas limitações. mas também deve estar ciente de que nenhuma delas invalida seus esforços no sentido de caminhar rumo a uma compreensão mais profunda desses temas e da própria atividade de pesquisa, análise e elaboração teórica. o conhecimento que tanto buscamos é aberto e não absoluto, temporário e não definitivo, parcial e não completo.

1 Comentário»

  nandodijesus escrito @

“De vez em quando te darei uma leve história – ária melódica e cantábile para quebrar este meu quarteto de cordas: um trecho figurativo para abrir uma clareira na minha nutridora selva” (Clarice Lispector, Água Viva)

Pois é, estamos mesmo mergulhados num mesmo oceano de possibilidades da linguagem. Minha amada Clarice entendeu muito bem essa sua explanação, fazendo de sua escrita aparentemente só de palavras um reflexo do domínio musical, e claro, da canção!
Fico imaginando se a canção, sob essa abertura conceitual, não seria mesmo a forma por excelência da comunicação humana, afinal nos comunicamos por palavras entoadas, naturalmente musicadas pela nossa voz…
Prossigamos cantando!


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